27.8.08

Jogos de olhares

Eram estranhos numa cidade estranha.
Ela sentia-se poderosa, sem as referências de quem sempre foi, podia ser quem quisesse, num mundo diferente qualquer personagem lhe serviria, todos os dias poderia encarnar uma pessoa qualquer.
Ele, longe daquilo que considerava a sua casa, o seu porto seguro, viajava para se encontrar, para se rever nalguma parte novamente dono de si e da sua vontade.
Conheceram-se numa dessas viagens que ninguém programa, através de amigos em comum.
Gostavam de se encontrar nos olhos um do outro, como se estivessem de novo conscientes de quem eram e do que podiam vir a ser... Ele capturava-a em fotos sem ela perceber, ela espreitava-o em cada esquina e arcada que descobriam nas cidades que íam conhecendo, cruzavam-se em breves olhares, trocavam palavras inocentes, como quem trinca o fruto do pecado.
Passeios de comboio, de barco, de nuvens, de noites. Jantares não programados, horas passadas de tantos e poucos nadas.
Ficou a vontade de outros passeios, de outras viagens, de outras fotos e palavras a dois que nunca aconteceram...
Ela voltou para o sítio que chama de casa e ele perdeu-se de novo à procura de si mesmo pelo mundo afora...

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